Precisas ler um pouco: já são três horas.
Esquece a cavadeira que planta buracos onde vias árvore frondosa.
Apaga da memória as queixas.
O que é a cidade senão esse emaranhado de desejos inconciliáveis?
Precisas ler um pouco.
Ler, esquecer, apagar.


Acordar e pensar: hoje. Hoje, o quê? Levantar, fazer xixi, dar descarga, lavar as mãos, voltar para cama e pensar: hoje. Hoje, o quê? Virar para um lado, virar para o outro, olhar o horário no celular e pensar: hoje. Hoje, o quê? Puxar o ar, buscar prumo, levantar.
Vivia num completo anonimato. Ele e suas coleções de discos raros, recortes, fotografias antigas, poeira e solidão. Tinha mulher, filho e netos, mas eles todos eram bem menos importantes do que a sua coleção de memórias.
Tinha sido ensimesmado desde sempre. Aos nove anos, já ficava olhando estrelas pela janela do pequeno duplex em que a família morava. O subúrbio era um dos poucos lugares de onde era ainda possível ver o céu.
Aos 15 anos, quando a família convidava para dar uma volta, visitar parentes, tomar um banho de mar, ir à padaria, trocar um pneu furado, invariavelmente, balançava a cabeça, e isso já era o suficiente para que todos entendessem que ele não iria à parte alguma, pelo menos se assim fosse permitido.
Como não incomodava, para a família pouco importava que não tivesse o ímpeto dos meninos de sua idade - sempre tão ávidos pela rua, pelo barulho dos vendedores ambulantes e por tudo, enfim, que estivesse do lado de fora de casa.
Quando resolveu pedir em casamento a sua vizinha de bloco, até a moça estranhou, mas, como não tinha mesmo outra proposta, achou por bem aceitar e não se falou mais nisso. Os filhos nasceram, eram sadios e também não se falou muito nisso.
O quarto onde guardava suas relíquias era pequeno e modesto. Ali, colocou pequenas tábuas, que nem bem lixadas eram, e foi agrupando, por nome e data de divulgação, os discos comprados com o troco que lhe sobrava de um salário tão sem graça quanto o próprio ofício que era obrigado a manter.
Todos os dias, andava quase um quilômetro para evitar duas conduções rumo à fábrica de soda cáustica, onde trabalhava desde adolescente. Não tinha especialização, mas fazia de tudo um pouco, tão logo fosse chamado a ajudar o assistente do diretor-geral, os setoristas e mesmo os ajudantes dos ajudantes, nessa hierarquia quase sempre flexível de uma empresa familiar, que ninguém sabia ao certo para onde iria, em tempos de preocupações ambientais.
Depois do trabalho, passava regularmente em pequenos sebos desorganizados, olhando cada livro mal cuidado como um objeto de museu. Seus olhos percorriam vagarosamente todas as pequenas caixas com volumes desatualizados e sem a menor importância literária.
Dali, seguia para uma pequena sala comercial no centro da cidade, onde antigos conhecidos costumavam fazer trocas de discos e objetos encontrados em outras cidades, em restos de mudança, e em outros lugares não sabidos e mais do que ignorados.
Ao voltar para casa, os filhos já estavam meio quietos. A mulher não lhe fazia muitas perguntas e ele comia qualquer coisa que estivesse à mesa, fazendo pouca questão acerca desses assuntos ligados à saúde e à boa nutrição.
Depois, procurava um pedaço de céu e lentamente já se organizava para dormir.
Antes de pegar no sono, de maneira recorrente, pensava: dormir, e o quê?

O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) foi um dos primeiros intelectuais a utilizar os anúncios de compra e venda e de fugas de escravos, publicados em jornais do século 19, como fontes documentais para a compreensão da realidade dos escravos africanos no Brasil. Editado pela primeira vez na década de 1960, a sua obra O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século 19, acaba de ser relançada pela Global Editora.
A obra reeditada tem 244 páginas e encarte com fotografias de escravos da coleção Carneiro de Mendonça. O livro, que teve primeiro a forma de uma conferência e foi publicado em 1934, na revista Lanterna verde, começou a ser escrito no final de 1933, após a conclusão de Casa grande & senzala, segundo conta o historiador e membro da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva, responsável pela apresentação.
Segundo Costa e Silva, o destaque quanto às datas tem uma razão. Servem para “ressaltar o caráter pioneiro de Gilberto Freyre. Ainda que Joaquim Nabuco, numa página de O abolicionista, se tivesse servido dos anúncios de escravos nos jornais para atacar o regime escravista, ninguém, no Brasil, havia, até então, sobre eles se debruçado como fonte histórica. Nem no Brasil, nem, de forma persistente e metódica, nos Estados Unidos ou na Europa”, explica.
Dez mil anúncios, segundo Freyre, teriam sido reunidos em sua pesquisa, a partir de recortes retirados do Jornal do Commercio, Diario de Pernambuco, entre outros periódicos.
No caso dos anúncios de vendas de escravos, ele diz que a lógica era a mesma utilizada em outros anúncios para venda de vinho, cavalo ou de uma casa: buscava-se atrair a atenção do leitor e expor os objetivos práticos que o objeto poderia proporcionar ao seu comprador. As marcas presentes nos corpos dos escravos, relacionadas aos hábitos culturais africanos ou à violência física impetrada pelos senhores de escravos, são estudadas por Freyre, que também observa nesses anúncios as relações estabelecidas entre os escravos e os seus proprietários.
De acordo com o livro, que tem minuciosa biobibliografia de Freyre elaborada pelo historiador Edson Nery da Fonseca, variou consideravelmente a procedência de negros trazidos, como escravos, da África para o Brasil. “Essa variedade reflete-se quer na figura física dos negros descritos pelos anúncios, quer nos seus característicos de ordem etnográfica ou de natureza cultural, registrados nos mesmos anúncios: marcas de nação, penteados, barbas, xales, turbantes, tangas, vestidos”, escreve o sociólogo pernambucano.
Gilberto de Mello Freyre nasceu no Recife em março de 1900, vindo a falecer no dia 18 de julho de 1987. Foi sociólogo, antropólogo, escritor, sendo considerado um dos nomes importantes da história do Brasil. Publicou 17 livros, entre os quais Casa-grande & senzala (1933), Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife (1934) e Sobrados e Mucambos (1936).
O livro pode ser encontrado na Fundação Gilberto Freyre (Rua Dois Irmãos, 320, Apipucos. Fone: 3441 1733). Preço: R$ 47.
(Publicado no Jornal do Commercio - Recife, 09/05/2010)
“Apenas o Rio de Janeiro e São Paulo podem, nesse momento, rivalizar com o Recife. O novo cinema que vem sendo produzido em Pernambuco é um cinema que aproveita a tradição dos anos 1970. Lírio Ferreira (Baile perfumado, Árido movie, Cartola e o Homem que engarrafava nuvens) e Cláudio Assis (Amarelo manga e Baixio de bestas), por exemplo, têm essa referência. Eles têm uma formação dentro dessa estética mais experimental.” A afirmação foi feita pelo professor-doutor de Teoria e História do Cinema na Universidade de São Paulo (USP), Rubens Machado Júnior, em visita ao Recife para ministrar o curso A fome e a forma: o cinema experimental no Brasil e as coordenadas estético-formais da estética da fome, na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).
“Quando esses cineastas se aventuram, há toda uma tradição que lhes dá suporte”, diz. Rubens se refere, sobretudo, à produção cinematográfica do Ciclo do Super 8, que é o segundo momento importante do cinema pernambucano, o anterior foi o Ciclo do Recife. Entre os superoitistas, que fizeram cinema experimental na trilha do Tropicalismo, a partir dos anos 1970, ele lembra os nomes de Amin Stepple Hiluey, Celso Marconi, Fernando Spencer, Geneton Moraes Neto, Jomard Muniz de Britto e o do artista plástico Paulo Bruscky.
Ele faz, ainda, outros elogios. “O Recife tem sido uma cidade exemplar no sentido de permitir uma relação com essa tradição radical dentro das estéticas cinematográficas.” Segundo o professor da USP, que foi curador da mostra Marginália 70: o experimentalismo no Super 8 brasileiro, realizado em São Paulo, no Itaú Cultural, de 2001 a 2003, aqui é o único lugar onde se tem acesso a essas produções em Super 8. “Há acervo e ele está disponível. Sem falar que, aqui, sempre houve exibição desses filmes, o que permitiu serem conhecidos pelas novas gerações. A partir da virada dos anos 1990, a cidade vem participando da renovação do cinema brasileiro, dando sequência a uma estrutura que veio se fortalecendo desde os anos 1970”, explica.
Os elogios feitos por Rubens procedem. Não é à toa que, nesse vigoroso movimento de retomada do cinema nacional, o estado vem contribuindo fortemente nesse processo. Hoje, em Pernambuco, há pelo menos 40 filmes, entre longas e curtas-metragens, em diferentes fases de produção.
EXPERIMENTAÇÃO
O curso de cinema, ministrado por Rubens Machado desde a última segunda-feira, na sede da Fundaj do Derby, faz parte do Programa Estudos da Cultura. “O objetivo é exibir e esboçar análises de filmes brasileiros, buscando compor um quadro histórico da experimentação cinematográfica e também introduzir possibilidades de interpretação dessas obras”, explicou Rubens.
O programa do curso foi dividido em quatro tópicos: História da experimentação: do mudo ao falado, A eclosão do Cinema Novo, Tropicalismo: Cinema Novo x cinema marginal, e Cinema marginal e experimentalismo superoitista. Entre os filmes escolhidos para exibição, em paralelo à carga horária do curso, destacam-se: São Paulo, a symphonia da metrópole (1929), dos imigrantes húngaros Rudolpho Lusting e Adalberto Kemeny, Lábios sem beijos (1930), de Humberto Mauro, Limite (1930), de Mário Peixoto, Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha, Os cafajestes (1962), de Ruy Guerra, Zézero (1974), de Ozualdo Candeias, O anjo nasceu (1969), de Júlio Bressane, e A mulher de todos (1969), de Rogério Sganzerla, entre outros.
(Publicado no Jornal do Commercio - Recife, 08/05/2010)
As questões geradas por um modo de vida baseado no consumo têm sido abordadas por inúmeros estudiosos do mundo contemporâneo. Também é assim com o brilhante e também igualmente polêmico Gilles Lipovetsky, que é professor de Filosofia da Universidade de Grenoble, na França. Em seu livro A felicidade paradoxal (Cia. das Letras, 408 páginas, R$ 60), ele afirma que nunca na história do mundo ocidental houve tanta oportunidade como agora de satisfação das aspirações individuais pelo mercado. No entanto, a felicidade originada da satisfação imediata proporcionada pelo mundo moderno é, para ele, uma felicidade ferida, pois jamais o indivíduo contemporâneo atingiu tal grau de desamparo como agora.
Para situar o leitor, Lipovetsky divide o que chama de era do consumo em três fases: o primeiro ciclo começando por volta de 1880 e chegando ao fim com a Segunda Guerra Mundial, período em que o pequeno mercado local é substituído pelos grandes mercados nacionais, em razão do surgimento da moderna infraestrutura de transporte e comunicação. O segundo momento, a partir de 1950, teria sido marcado pela economia fordista: aumento na produção e no seu escoamento. Foi nessa segunda fase que o consumo de automóveis, televisão e aparelhos domésticos, ícones da sociedade de consumo até então, aumentou de maneira significativa. “Houve a difusão do crédito, as massas pela primeira vez têm acesso a uma demanda material mais psicologizada e mais individualista e a um modo de vida antes associado às elites”, pontua em seu livro.
É a partir dos anos 1970, segundo o autor, que começa o terceiro ciclo – a fase atual – que ele apelida de sociedade de hiperconsumo, época marcada pela subjetividade do consumo. O desejo não é de objetos úteis, mas de um algo qualquer que dê prazer e conforto, sendo o hedonismo (doutrina filosófica-moral que afirma ser o prazer o bem supremo da vida humana), o sentimento que permeia essa relação.
A aquisição de mercadorias, com a sofisticação das estruturas capitalistas, já não implica em dar suporte à existência e a sobrevivência humana. Na hipermodernidade, sustentada pelo mercado liberal e pela democracia, o hiperconsumo instaura um tempo marcado pela “aventura individualista e consumista das sociedades liberais.”
Uma outra característica da sociedade hipermoderna é a “febre da mudança perpétua”. Auxiliado por Freud que dizia que “a novidade será sempre a condição de gozo”, Lipovetsky pergunta: “Não é precisamente esse poder da novidade que constitui uma das grandes molas atrativas do consumo?” para, depois, sentenciar: “Excitação e sensações é que são vendidas”. E escreve ainda: “Uma estética do movimento incessante e das sensações fugazes comanda as práticas do hiperconsumidor.”
A todo momento, o individualismo perpassa as novas escolhas. Segundo o escritor, em outros momentos da história, existiam modos de socialização, “normas e referências coletivas que distinguiam o alto e o baixo, o bom gosto e o mau gosto, a elegância e a vulgaridade, o chique o e popular, as culturas de classe instituíam um universo claro e sólido de princípios e de regras fortemente hierarquizados e assimilados pelos sujeitos. Essa ordem hierárquica se desmantelou.”
EXPOSIÇÃO PÚBLICA
Às favas com os pudores da subjetividade. A exposição pública de aspectos historicamente ligados ao que era íntimo e privado é outro ponto importante abordado. A vida pessoal passa a ser exposta à luz do dia. E o livro cita alguns exemplos: biografias escandalosas, conversas telefônicas em público, programas televisivos nos quais os entrevistados contam suas intimidadas, promoção de celebridades insignificantes, e jogos de telerrealidade em que os feitos e os ditos cotidianos dos participantes são retransmitidos ininterruptamente ao público.
Esse mostrar tudo, dizer tudo e ver tudo é responsável pelo apelido de sociedade transparente, que, segundo Lipovetsky, vem sendo dado à sociedade de hiperconsumo, numa época em que os indivíduos parecem não ter mais nada a esconder de um público cujos assuntos preferidos são o desvendamento dos estados de espírito. “Depois do sensacionalismo das notícias e dos furos da vida política, nossa época é magnetizada pelo exibicionismo da intimidade do homem comum.”
Gilles Lipovetsky nasceu em Millau, cidade do interior da França, em 1944, e é considerado um dos mais brilhantes pensadores da atualidade. Desde a década de 1980, ele dedica-se a estudar questões ligadas ao consumo e o comportamento humano que resulta dessas relações. Tem inúmeros livros publicados no Brasil, entre os quais, A era do vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo e O império do efêmero.
(Publicado no Jornal do Commercio - Recife, 02/05/2010)