terça-feira, maio 11, 2010

Uma moça sempre à janela


Sábado, que era de lua cheia, tornou-se Sábado de ruas alagadas. A casa da avó, uma ilha. Coitada da avó, quase cega e morando numa ilha.

Domingo, que era de chuva, tronou-se Domingo de rápido céu Blues. Beatriz precisava tomar coragem: sair da janela, almoçar, telefonar, organizar papéis diversos.

Na Segunda-feira, voltava para casa apressada. Chegava ofegante. Cabelo, blusa e sapato molhados para desespero da avó. Mas o juízo, pensava Beatriz, estava seco. Trocada a roupa molhada, ia à janela olhar a casa ilhada. Precisava mesmo organizar alguns papéis e apostilas. O guarda-roupa desarrumado a olhava de soslaio como a fazer sutil advertência pelo descaso com as coisas simples da vida. Da janela, seu ponto de observação mais legítimo, olhava o Inverno passar.

No Inverno, o mundo passava de guarda-chuva, capas escuras, botas cheias de lama, livros apertados junto ao peito. A casa da avó, uma ilha. A avó tolhida da tarefa de aguar as plantas, pequeno prazer diário que o Inverno lhe negava. Assim, era obrigada a passar os dias em frente à TV, olhando fixamente o aparelho velho e com defeito. O Inverno era apenas dois meses de chuva (e nenhum frio!), mas para a avó parecia nunca terminar. Passada a estação chuvosa, no entanto, nem se dava conta que tinha, sim, sobrevivido. Tinha, sim, conseguido ultrapassar manhãs e tardinhas, sem tirar as folhas secas da comigo-ninguém-pode, do cafezinho e da jibóia.

Na Terça-feira já era Verão. Encostada à moldura de madeira da janela imensa, Beatriz percebia que a tarde era de moças em bicicletas. Olhava-as a perder de vista e pensava que distância era algo muito engraçado. Existia e não existia. Depois, olhava as crianças passando e berrando e a mãe tentando acalmá-las – tarefa fadada ao fracasso. E, horas depois, via homens esquisitos com cara de traficantes, homens com cara de homens que olham seguidamente para trás, receosos de estarem sendo perseguidos. E o fato é que, situada naquele ponto privilegiado, Beatriz compreendia que nem uma formiga minúscula perseguia ou reparava naqueles homens esquisitos. A observadora atenta olhava, então, a avó mais uma vez no jardim, cuidando de suas plantinhas. A avó adivinhava as folhas secas, passíveis de corte: corte seguro-seco, aprendido ao longo dos anos.

(E o verde preciso da folhas do Cafezinho contrastando com o azul sem nuvens do céu de Agosto enchiam os olhos de Beatriz de difusa alegria. Nascera com essa predisposição para observar o mundo. Era bem verdade que, vez por outra, olhava, constrangida, seu próprio quarto, onde tudo estava continuadamente bagunçado. Com pesar, abandonava a janela e levava horas e horas na arrumação, consciente que, se houvesse limpado e organizado um pouco por dia, não gastaria tantas horas num só dia, mas, enfim.)

A faxina geral era feita às Quartas-feiras. Apesar da falta de disciplina, Beatriz escapava sempre por um triz. E porque na Quarta-feira acordava sempre indisposta e porque faxina mexia com sua areia movediça e porque a avó era sensível lhe fazia um chá de camomila.

A Quinta-feira passava muito apressada e, quando Beatriz se dava conta, já era noite cerrada.Restavam-lhe, então, algumas estrelas de ocasião e uma rima pobre.

Na Sexta-feira, tomava banho demorado, escovava os dentes brancos, usava fio dental, colocava calcinhas novas e mexia o bumbum tentando se equilibrar num palito de dentes. Olhava as poucas pessoas voltando para casa, dava tchau para avó, e desfilava para ninguém, uma noite inteira, em frente à sua própria janela.


(Texto 1997)

segunda-feira, maio 10, 2010

Dos afetos contemporâneos


...A magnitude de tudo aquilo estava precisamente naquele rosalaranja que impregnava o horizonte depois que o sol havia ido embora...

Enquanto isso, Rafael descia e subia escadas, retirando do apartamento onde morava roupas e toalhas e lençóis e apostilas. Pareceria banal tudo isso não fossem os gemidos de Maria.

Rafael tinha feito Maria delirar em noites e tardes de sexo quente e barulhento. Eu me perguntava quantas vezes teriam eles assistido à versão pop do Kama Sutra e o quanto acreditariam no amor tântrico. Obviamente, imaginava que os meus porquês tinham lá seus ais. Independente disso, algo era certo: quanto tempo eles agüentariam aquele afeto corporal, seguido de frases adocicadas sobre o cardápio do jantar.

Era a quinta vez que fechava a porta do carro. Por duas vezes, deixou a chave cair no asfalto. Agachou, pegou a chave e, de novo, refez o caminho. Do seu rosto, impressionantemente jovem, não jorrava nada. Nem cansaço, nem chateação, nem pesar, nem coisa alguma. Era como um autômato que subia e descia e agachava e abria e fechava a porta do carro, do apartamento e do mundo.

Era assim, então?

Rafael dormia com Maria que dormia com Rafael. Um dia, uma briga, e lá se foram roupas, toalhas, lençóis, e caixas de som.

Entrou no carro, deu um pequeno ré, engatou uma primeira calma e plácida e, sem remorso, foi embora. Nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Estava indo embora como quem deixa um supermercado ou um posto de gasolina.

Na noite densa, nem gemidos, nem música, nem nada.

Uma casa vazia, uma Maria, mais nada.


(2005)

Pressentimento


Estudou música desde criança e, aos 21 anos, já era músico profissional. Estrangeiro fixado no Brasil, certo dia, casou e teve dois filhos. Inquieto que era, viajou por vários estados, até encontrar um lugar para viver. Sua mulher era uma destemperada, que gritava de noite e de dia quando tinha motivos e quando motivos faltavam. Assim, em certa ocasião, sem saída, resolveu dar um basta naquilo tudo, mesmo sabendo que isso não se faz sem perdas. Os filhos ainda pequenos ficaram com a mãe, precisando depois empreender grande esforço para ter a guarda dos meninos, que eram lindos de doer.

Nunca foi dado a divagações filosóficas: era homem prático, de relativo fácil trato, apegado apenas ao seu instrumento de sopro, aos filhos, aos gatos e ao cachoro, não necessariamente nessa ordem. Também tinha certo apreço por sua bicicleta. Ela o conduzia a qualquer parte da cidade, exceto em dias de chuva. Nesses dias, pegava um ônibus, considerando que a cidade em que morava era uma das poucas do País a contar com um bom sistema de transporte público.

Passados alguns anos da separação, viveu alguns romances, mas nada muito significativo. Até quem, um dia, do nada, apareceu essa mulher. Era branca, tinha cabelos claros, olhos escuros, de estatura mediana, e igualmente louca como a primeira mulher que havia tido. Mas, concordemos, possuía um tipo de loucura dessas que não faz mal a ninguém.

Não chegou de mansinho. Chegou querendo inúmeros espaços.

Embora não fosse tão atento aos sentimentos alheios, era bom observador de movimentos, e se a deixou entrar na sala e no pequeno escritório e depois em toda parte foi porque quis mesmo. Nem um só momento de distração foi registrado.

O certo é que permitiu a entrada e, depois, a estada dessa mulher em sua vida.

Os dias começaram a passar com velocidade e igualmente veloz crescia o seu sentimento pela mulher branca, espaçosa, vinda do nada. Gostava do seu cheiro, do modo como mexia os cabelos, de um certo mistério que não se explicava. Para além disso, não era necessário qualquer adequação para manter uma convivência harmoniosa. Tudo parecia fácil e suave. Finalmente, a vida tinha lhe dado algo, sem a necessidade de grande esforço.

Pouco a pouco, os dias ganharam uma nova textura. Era bom voltar para casa, conversar, rir um pouco da vida, fazer pequenas tarefas e refeições juntos e sair para passear. Não lembrava de ter experimentado nada similar em toda a sua vida e já não era mais tão jovem.

Certo dia, no entanto, ao voltar do trabalho, cruzou com um carteiro - um velho conhecido do bairro - e teve um súbito pressentimento de que algo estava por acontecer. Nunca tinha dado muita bola para essas coisas que não se explica. Achava que eram bobagens e, por cima, era quase ateu. O fato é que, naquela ocasião, movido por sentimentos mágicos apressou o passo e, depois, disparou a correr até chegar ao portão de casa.

Ao entrar, coração aos pulos, não encontrou nada do que lhe era conhecido. Seus móveis tinham desaparecido e, em lugar deles, havia outros objetos. Tudo estava muito organizado, mas era absolutamente desconhecido. Da mulher, não havia sinal, como se nunca tivesse estado ali. Não sabia o que fazer com tamalho mistério. Ao olhar seu rosto, em um grande espelho no centro da sala, percebeu que aquele que pensava ser também nunca havia existido.

Às vezes a vida apronta cada uma!



(Texto 2008)

Vida para consumo


Lido muito mal com prazos. E com pressão também. É por isso que, por mais que eu tente, fico só enrolando, olhando o papel, tateando o teclado, buscando o que não faz a menor questão de vir à tona. Do lado de fora, um silêncio de feriado. Do lado de cá, uma palavra ou outra perdida da mulher ao telefone com seu forte sotaque estrangeiro. Brasileiro no exterior só consegue distribuir folhetos nas esquinas, fazer faxina ou ser garçom. No Brasil, ao contrário, estrangeiro é coisa fina. Colônia é colônia. E por falar em cheiros, tem coisa melhor do que um bom perfume? Eu não sabia, mas tem gente que não suporta. Se for por uma questão de saúde, alguma alergia, essas coisas, dá para entender. Agora, não gostar de perfume porque não gosta de perfume, aí, já acho que se trata de problema sério. É quase tão grave quanto falar tudo no gerúndio. Se um dia eu tiver um ataque do coração terá sido por ouvir em excesso essas moças e rapazes que trabalham para as empresas de telefonia móvel.

Até bem pouco tempo, chique era ter um telefone fixo em casa e um telefone móvel, que viajasse com você pelos quatro cantos da cidade. Agora, chique é ter um único aparelho que tem as duas funções e que, ainda, é máquina fotográfica, despertador, tocador de música e sei-lá-mais-o-quê. Também lembro da época em que era cafona, mas muito cafona, ter grandes aparelhos de televisão em casa. Chique mesmo era ter uma televisão pequena. Os anos se passaram e, agora, quanto maior, melhor, de novo. Tecnologia a serviço dos critérios de status de uma sociedade. Bem interessante essa nossa sociedade cheia de gerúndios, aparelhos de televisão gigantes e estrangeiros bem empregados, obrigada! A bem da verdade, televisão grande não. Trata-se de home-theater system. Biscoito mais fino. Iguaria já quase popular a ponto de não ser mais chique. O que é popular não é chique. Se todo mundo pode, não tem graça. Graça é ter o que os outros não podem ter. Isso torna uma pessoa muito chique. Sociedade interessante essa nossa.

Isso para não falar na linguagem. E isso vai muito além das expressões que se memoriza a partir dos programas de televisão, comerciais, e todo esse lixo a que estamos expostos. A linguagem cotidiana, além dos gerúndios utilizados pelas moças e rapazes do mundo do atendimento, dá vontade de chorar. E, aqui em Brasília, parece que a situação é mais grave. Talvez, seja a falta de umidade no cérebro. Talvez, seja algo mais complicado. O que mais me assusta é que esses hábitos são contagiosos. É comum ser surpreendido por uma bomba saindo da boca e você atônito sem acreditar que falou uma barbaridade capaz de tremer aurélios e dona Maria do Carmo.

Em por falar em brilhantes professoras de português, dessas que nenhuma tecnologia japonesa é capaz de produzir, estou em dívida. Tinha que escrever uma carta para dizer a dona Maria do Carmo que foi graças a sua presença em minha vida, naquele tempo longe do Santo Antônio, que ainda consigo articular alguns sons e produzir meia dúzia de textos, mas era preciso tê-la trazido comigo pela vida afora. Isso evitaria ferir a linguagem, os meus próprios ouvidos e os dos meus poucos leitores.


(Texto 2007/Foto 2010)

quarta-feira, novembro 05, 2008

Gramas de Soma


De cabeça para baixo já não podia ficar por muito tempo. As tragédias tinham deixado suas marcas na alma e no corpo. Assim era, portanto. Já não podia ficar de cabeça para baixo sem ter a sensação de que morreria sufocado. E, se morresse durante a noite, quantos dias levariam para que percebessem o seu desaparecimento?

Que importava também? Era só mais um no meio da multidão. Uma multidão ávida por uma vida nova. Vida nova significando carros novos, casas novas, amantes novos, geladeiras novas, lençóis novos, uma vida inteira novinha em folha era o grande sonho coletivo.

Estava tão desolado. Havia chegado ao final do ano e sabia que não havia chegado a lugar nenhum. Havia chegado ao final do ano e sabia que não havia chegado. Havia chegado ao final do ano. Estava sentado na mesma cadeira, no mesmo escritório, na mesma cidade, olhando o rosto aborrecido dos mesmos colegas. Não, não era isso o que tinha em mente, absolutamente.

Mais uma vez, tentou manter a coluna ereta, mas, desta vez, não funcionou. Seu plano de fuga também não. Se, ao menos, tivesse gramas de soma, como Bernard e Lenina, personagens de Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo, então poderia ficar horas e horas vivendo uma alegria inventada por admiráveis homens novos.

Mas não tinha nada, exceto essa dor que queimava o seu corpo por dentro e que o fazia pensar que lógica teriam a matéria, o corpo, a alma e o mundo. Não, não tinha nada. Não tinha família, não tinha amigos do peito, nem nada. Estava só no mundo. E isso não era lá uma coisa muito fácil de encarar, nem no final do ano, nem em tempo algum.

Seu coração experimentava tudo com dor e intensidade. Seria isso normal? Seria isso indicado? Não seria isso algo perigoso? Mas como fazer para deixar de ser assim? Como escrever essa narrativa impossível? Só Clarice encontrava alguma salvação pela palavra. Mas Clarice era Clarice e ele era apenas um rapaz latino-americano sem parentes importantes e vindo do interior.

Se ao menos tivesse um pouco de soma, viajaria pelo espaço sideral e não ficaria tão aborrecido com o cenário inventado por estranhos seres, apelidados de arquitetos do futuro.

Futuro, futuro, futuro, desde Pedro negando Jesus três vezes. Não, não era isso o que tinha em mente, absolutamente.


(Foto 2008)

Cerrado não é lugar de peixe


Engana-se quem pensa que escreve o que quer. Os textos são independentes. Eles usam a gente para aparecer no mundo. Eu sou uma das testemunhas das artimanhas das palavras. Tão apressada não sei do quê eu estava que resolvi escrever em pensamento, antes de escrever mesmo. Tinha o começo, uma parte do meio, quando, de súbito, percebi que aquilo não iria funcionar. Bastaria eu sentar, imaginar o papel em branco em posição vertical (sim, sim, porque na era digital, os papeis ficam em frente da gente, em pé, como as telas dos artistas plásticos) e pronto: copiar ali o que eu havia imaginado no banheiro. Sim, eu estava escrevendo no banheiro, digo, eu estava escrevendo mentalmente no banheiro. Muita gente pensa no banheiro. Outros escrevem. Banheiro ou não, o fato é que tudo o que escrevi desceu pelo ralo. Cheguei aqui, sentei, olhei o papel, e nada. E eu sempre apressada não sei do quê pensei: pois é, as palavras são o que querem ser, e não o que a gente imaginou que elas seriam.

Assim seja.

Sei que o domingo já se foi. Eu? Às voltas com a pescaria de palavras. Peixe nunca pesquei direito. Um dos meus avôs tinha essa mania de pescar, mas eu mesma acho que não ganharia um tostão com isso. Primeiro porque eu tenho pena daquele troço pontiagudo na boca dos peixinhos e, segundo, porque eu acho meio enfadonho esse negócio de ficar esperando pelos peixes.

Sim, mais uma morte! Morreu o meu peixe. Ele morava com a minha mãe, pois era muito jovem para viajar por aí comigo. Morreu dias depois da morte de uma das minhas avós. Acho que ele pressentiu o clima geral e puf! Deu fim à própria vida. Digo que isso foi iniciativa dele porque não faz sentido um peixe durar tanto tempo – coisa de uns cinco anos. Se ele viveu tanto, então, poderia muito bem durar uma vida inteira. Conclusão: os peixes, ao contrário das pessoas, morrem no dia em que lhes dá na telha. Os de aquário. Os outros morrem porque tem muita gente que gosta de pescaria. Ou de poluição.

Por onde ando, o que menos tem é peixe. Cerrado não é lugar de peixe. Ou então é e eu não sei. Nunca vi um peixe por aqui, mas é bem capaz que exista. O que tem mesmo por aqui é tubarão. (E tubarão não é peixe, menina?!) Aqui chove tubarão. Num só dia, na semana passada, eu conheci três pessoas-tubarões.

Mas agora já é noite e eu tenho de ir. Não que eu tenha medo do escuro da noite, do breu da cidade. O que eu tenho medo é de outra coisa. Eu tenho medo é de não dar certo. Não dar certo o quê? Sei lá.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Voo na infância

Foi Ivana quem me pediu para escrever um texto sobre uma outra amiga de infância. Eu não sei escrever encomendas porque isso é coisa muito difícil. Aliás, escrever é difícil de qualquer jeito. Mas o motivo do pedido era relevante e eu aceitei o desafio. Era necessário registrar - em algum lugar - palavras que guardassem o que o destino teimou em levar. Vou tateando e amaciando o teclado e me ponho triste. Muito tristes, vejo-os daqui de tão longe, devem estar Dona Lourdes, Seu Severo, Alexandre, Maria Eduarda e Tiago.

Lembro bem de Dona Lourdes, na porta da casa, nos recebendo com simpatia enquanto, do lado de fora, um bando de meninas trelosas berrava, chamando a amiga para passear de carro. Passear de carro era uma aventura naquele tempo. Ninguém tinha carteira de motorista, nem carro próprio, nem nada. Tratava-se de uma deliciosa esculhambação. Lembro também que, muitas vezes, Jane apenas ouvia as histórias engraçadas contadas por Pixilinga (Érika) pela janela do carro, dava a sua inconfundível risada e, depois, se despedia porque, ao contrário da gente, tinha mais o que fazer. Como Lana (Roselane), Jane sempre pareceu mais madura ou mais focada, como se diz hoje em dia. Já era mais mulher do que menina. Pelo menos, era assim que eu percebia.

Muito tardiamente descobri que era virginiana. Muito tardiamente descobri que teria, muito em breve, 40 anos, a mesma minha idade e de Fosbi (Fabíola).

Mana (Sheila) e Liana, todas as velhas amigas, companheiras de risadas e muitas brigas, me deram notícias de Jane à época do São João, mas não me aconselharam ir até lá. Tive vontade e tive receio. Seu caso era grave, muito grave, mas ela alimentava a esperança de não sucumbir a mais terrível das visitas, aquela que nos levará embora a despeito de todos os pedidos em contrário. Jane amava a vida, tinha bom humor, e era uma excelente vendedora. Tudo isso me disseram porque já não se contam nos dedos os anos em que a vi pela última vez.

Também soube que continuava a usar a mesma franjinha no rosto, contrariando o jeito de mulher que sempre me pareceu possuir. Era uma mulher disfarçada de menina ou uma menina disfarçada de mulher? Nunca tivemos uma amizade íntima, mas eu sempre senti empatia por ela, julgando ser boa gente. Minha saída precoce de Caruaru não nos deu outras oportunidades. Com alguns hiatos, continuei mais próxima apenas de minha prima - que sempre me defendeu dos outros, mas, que paradoxalmente, me batia se tinha uma oportunidade - e de Fabíola, Roselane, Liana e Ivana.

Jane, ao contrário de mim, nunca saiu de Caruaru, no que fez bem feito. A gente fica sem raízes quando corre o mundo. É verdade que tem muitas histórias para contar, mas, ao mesmo tempo, fica meio solta, meio órfã de ruas e casas e telhados cotidianos. Tem saudade e desejo de voltar, mas já não sabe onde mora sua casa escondida, alugada, perdida.

Nunca pensei que pudesse um dia escrever um tipo de obituário. Nunca pensei que amigas e colegas de infância morressem. Pensei que tudo isso duraria para sempre. Estava bem errada.

Edjane de Melo Silva, nascida sob o signo de Virgem, casada e amada, pois assim me contaram, morreu vítima de câncer, na sexta-feira, 13 de julho de 2007, às 6h45 da manhã, na cidade em que viveu. Jogou vôlei, fez amigos, teve uma menina e um menino, dois irmãos, uma amigona (Heloína), outras amigas (Lúcia, Adjani, Giovana e quantas outras?). Deixou um lugar vazio, um lugar que nunca será de nenhuma outra pessoa, únicas que somos. Por um tempo, o choro no coração doído. E depois, quando os dias e os meses e os anos passarem, ficará a lembrança de uma franjinha, de um sorriso, de uma risada imensa ecoando na solidão.


terça-feira, junho 05, 2007

Lixo bruto

Era isso o que criava diariamente: um universo sem saídas. Não sabia há quanto tempo elaborava impasses, mas devia ser coisa antiga. Tudo em nós é muito velho. A grande novidade é a gente perceber o fato. Modificar essa situação de coisas... ? Hum, aí já são outros 500!

Acordava pela manhã e decidia iniciar o processo de reciclagem do lixo. Separava os jornais numa pequena sacola, as garrafas de vidro em outra, o lixo orgânico numa terceira, e assim por diante. Mas, lá embaixo, num mesmo container estava tudo misturado. Qual seria o sentido desse papel quixotesco?

Difícil explicar como se dava esse processo de inventar ruas e avenidas, mas nenhum saída. Algo meio sutil, sem nome. Resumindo poderia dizer que se tratava de um bruto emaranhado de fios sem pé, nem cabeça.

Finalmente, alguém havia explicado direitinho o motivo de todo mundo ter mania de automóvel no Brasil. A classe média brasileira abandonou o serviço público de saúde, a educação pública e, finalmente, o sistema de transporte coletivo.

Cheia de explicações, caminhava em direção à parada de ônibus, buscando quebrar a hegemonia desse comportamento. Mas não havia ônibus. Os trabalhadores não precisam de transporte aos domingos. Não adianta procurar brechas. O sistema sempre ganha.

Pensar e ver demais é perigoso e adoece. Isso já era público e notório. A questão essencial era descobrir uma maneira de continuar pensando e vendo muito, mas sem adoecer. Hum, talvez a resposta pertença também à iniciativa privada! E aí só pagando a mensalidade do cartão de respostas.

Capitalismo, capitalismo selvagem, grandes centros urbanos, marginalização do campo e de suas técnicas milenares, individualismo exacerbado, mundo virtual, fragmentação da linguagem, velocidade.

Há muito tempo tinha lido, em Porto Alegre, uma frase dizendo assim: "o mundo é tão brilhante que vou precisar dos meus óculos de sol".



sábado, agosto 19, 2006

Procura-se

De cabeça para baixo. De cabeça para cima. Para baixo. Para cima. De maneira semelhante a um exército sob o comando de Carlos Magno, o corpo tripudiado obedecia às ordens do destino. Vítima das indicações e demandas mais esdrúxulas, começou a emagrecer. Não porque a comida não lhe fizesse bem. É que sua garganta havia travado do mesmo modo que travam alguns sistemas sofisticados para evitar riscos maiores.

Reparou em tudo e não encontrou em nada, embora as prateleiras parecessem mais cheias do que nunca e as gavetas abarrotadas de uma série de objetos (inúteis!). E papéis... aos montes! Papéis em branco, com uma ou outra anotação, com números e nomes que não faziam o menor sentido.

Por certo, algo havia acontecido durante a sua longa ausência. Também quem manda visitar o outro mundo e depois voltar para ver o estrago?! Se já não há tempo para cumprir pequenas agendas rotineiramente porque os dias parecem efetivamente cada vez mais curtos, que será daqueles que se perderam do que se costuma chamar realidade?

Pelo menos, não havia se perdido de si. Percebia, sim, que o escorpião encalacrado tinha aberto muitas portas e paredes e janelas, mas, ainda assim, um certo pano de fundo dava um norte ao amontoado de fotogramas.

Todo o trabalho de contenção de um fabuloso volume d'água havia descido comportas abaixo. A conclusão era pueril: não se pode tapar o sol com uma peneira. Em lugar de ler os gregos ou os clássicos, por certo, mais serventia encontrava nos ditados populares. Alguma sabedoria não estava nos livros, mas na língua do povo, como queria Manuel Bandeira. Talvez na poética suja de verdades doídas e precisas de Ferreira Gullar.

Não, não era verdade que os livros fossem assim tão inúteis. A crise pequeno-burguesa logo passaria e tudo voltaria a ser como antes. Antes do que, mesmo? Quando nasceu, viu logo que não seria fácil não. Pouco depois, confirmou que nem as flores cresciam direito e era, sim, por conta da estiagem. Fazia um calor, mas um calor de dia e um friiiioooo de noite, que até usava pijamas de flanela e cobertor cor de rosa. Era um jeito de se proteger do que viria.

Daquele dia até a noite de hoje, milhares de anos se passaram. A vida era um amontoado de roupas esperando o ferro de passar. Uma boa lavadeira daria forma aquilo tudo. Usaria um pouco de goma, muito capricho e dobraria cada pequeno pedaço de tecido no lugar certo. Uma boa lavadeira, em geral, também é boa passadeira e guarda tudo muito direitinho. Dobra com rigor até peças íntimas. Uma boa lavadeira é essencial. Já inventaram lavadora e secadora. Essas máquinas vendem que é uma beleza no mundo inteiro.

Mas, no momento, uma máquina não há de passar à ferro minha vida. No momento, procura-se lavadeira que saiba passar e dobrar e guardar com doce rigor.












Woman Ironing (1960). T. Main.

domingo, maio 21, 2006

Cabeça, tronco e membros

Às vezes, palavra é coisa que falta. Mesmo que a história seja comprida. Dizer o que mais? Espaços em branco dentro e fora de mim. Dias e noites de nada. Silêncios imensos (pausa). E o mundo a fazer o seu giro em busca do quê? Espaços em branco na agenda. Dias e noites sem compromisso algum. Palavra, palavra, será mesmo português o que escrevo brasileiro? Espaços em branco no fogão e na geladeira. A casa vazia de tudo e de mim. Dias e noites ausente. Silêncio de morte (ponto). E o mundo a fazer o seu giro em busca do quê? Certezas e dúvidas extremas. Tudo ao mesmo tempo, e por quê? Porque tudo é extremo quando somos obrigados a parar. Às vezes, mesmo em movimento, tem um ou outro espertinho a perceber que a vida é urgente. A vida é pra ontem. Mesmo porque palavra diz nada não. Palavra, já disse, é quase enganação. Quero ver é Zé ter coragem de fazer, mostrar, olhar, querer, mas não com a boca, e sim com o coração, braços e dedos da mão. A bem da verdade, falta unidade. Falta um certo alinhamento entre cabeça, tronco e membros. A palavra fala o que quer, o coração diz outra coisa e o corpo, ah, o corpo, esse lugar sofisticado e estranho... Nesses dias e noites de nada, descobri que azul não é azul e que vermelho pode ser cinza. Ou vice-versa. A essa altura, tudo tanto faz. Fim, começo, meio, que ordem dar às coisas? E quem lê, pode vir a pensar: qual o sentido disso tudo? Tudo e coisa alguma. Só esse esforço tremendo, cuidadoso, para acertar o passo. Pelo menos agora, inútil procurar um sentido: é muito cedo.

sábado, abril 29, 2006

De quando tornei-me um besouro maldito...

Eu era muito jovem quando li A Metamorfose, de Kafka. Mais divertidas eram as comidinhas árabes que eu viria a conhecer depois, cujos nomes tinham sonoridades semelhantes ao do nome do escritor nascido em Praga, uma das cidades mais lindas que já visitei. Nem queria sair de lá. Deixei o visto expirar, fiquei clandestina, perdi o bilhete de trem para o retorno, sendo obrigada a comprar um outro, tirando recursos de uma caixinha já muito esvaziada. O motivo era a própria cidade, uma enorme ponte ladeada por lindas esculturas, suas colinas e arquitetura. Além disso, com a proximidade do Natal, havia música por toda parte na cidade, algo que me fazia sentir como se estivesse dentro de set, algo muito adequado à cinéfila sonhadora que sempre fui.

Mas, voltando ao que é monstruoso, aterrador, claustrofóbico e, aparentemente, sem sentido, pesco na memória o nome de Gregor. Para os otimistas de plantão, que enchem um pouco o saco, é mesmo fantástico, que a essa altura do campeonato, eu ainda lembre do nome da personagem principal.

O fato é que aconteceu mais ou menos assim: aos poucos fui tomando o aspecto horrendo de um besouro maldito. Cheia de areia nos olhos, comecei minha descida aos infernos. Cada parte do meu corpo seria afetada de maneira e intensidade diferentes.

Não sei se besouro tem orelha, mas o meu novo formato besouro incluía uma casca preta grossa que cobria as duas orelhas. Toda a área ganhou um aspecto mórbido.

Mas seria, certamente, a boca - cavidade e lábios - o lugar do meu martírio. Dali nada entrava ou saía, exceto dor e gemidos. Além da aparência grotesca, o mal ali faria sua festa de gala.

Pelo corpo, feridas.

Na alma, desespero.

Na sala inteira, discórdia.

Aos poucos, fui perdendo peso, sangue, uma ou outra certeza, esperança, desejo, criatividade e força. Dia após dia, tudo se agravava e eu vivenciava um terrível pesadelo. E o pior é que sabia que ninguém me acordaria. Todos os anjos pareciam ter me abandonado. Eu estava nas mãos do diabo. E ele faria o diabo comigo.

Eu não sabia que um ser humano poderia sobreviver a tanta dor física. Achava que Jeshua tinha passado por tanta dor, mas em função de um propósito supra-humano. Agora sei que homens e mulheres foram feitos para sobreviver, apesar da dor extrema que podem experimentar.

Mas, apesar disso, eu intuía que Ele havia sofrido ainda mais do que qualquer ser humano, e era isso que eu tentava lembrar a cada açoite diabólico. Mel Gibson, em A Paixão de Cristo, não exagerou em nada, ao contrário do que se disse quando do lançamento do seu filme. Ele tão-somente mostrou, quase em caráter documental, o que fizeram ao Filho de Deus. Não é possível pensar que era sucesso e reconhecimento o que ele queria. Na verdade, foi muito corajoso mostrar, numa época como a nossa, o que se passou em Jerusalém.

Jeshua foi torturado. Muitos vêm sendo torturados, por motivos diversos, ao longo dos séculos. O legista que examinou o corpo do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, declarou que ele sofreu tanto, mas tanto, que o cadáver ficou em estado de trauma perene. Ou seja, mesmo depois de morto e bem morto, o cadáver parecia sentir dor. Tecnicamente, não é bem assim. Essa é, digamos, uma licença minha de interpretação.

De qualquer forma, o que estou tentando dizer, de maneira enrolada e prolixa, é que a tortura é inaceitável e que ela deveria ser banida da Terra. Pois, as outras dores, aquelas que são provocadas por outros seres humanos a gente não tem como evitar. A dor de não ser correspondido no amor, por exemplo, não tem jeito: não se pode evitar. Também não se pode fazer nada contra o poder do Mal. Apenas rezar para que o bem vença no final.