sexta-feira, julho 16, 2010

Ausência em Montez Magno




» ARTES PLÁSTICAS


Pintor inaugura hoje a exposição Thânatos no Instituto de Arte Contemporânea. A mostra explora cômodos que se destacam pelo vazio

Fabianna Freire Pepeu

Foi pouco depois de concluir o livro de poemas Enquanto respiro, ainda inédito, que o artista pernambucano Montez Magno deu início a produção de oito dos nove trabalhos que compõem a Série Thânatos. A exposição será mostrada a partir de amanhã, às 19h, no Instituto de Arte Contemporânea da Universidade Federal de Pernambuco (IAC/UFPE – Rua Benfica, 157, Madalena fone: 3227 0657).

Ao observar as obras dessa série, é fácil lembrar das velozes figuras com asas associadas, na mitologia grega, a Thânatos – considerado inimigo do gênero humano, ou a própria personificação da morte.

“Tive a necessidade de um processo catártico (purificador). Era necessário liberar uma série de coisas que estavam dentro de mim, alguém que reflete sobre o tema da morte”, diz o artista, que nasceu em Timbaúba, e cuja primeira individual foi realizada, no Recife, ainda nos anos 1950.

“Há dois aspectos fundamentais presentes nessa mostra, que são a questão da catarse e, ainda, um outro elemento invisível”, explica Montez. O artista se refere à figura humana, que insinua sua presença, mas, na realidade, está ausente de todos os quadros – exceto em Só, de 1991, que foi incorporado à exposição pela similaridade temática.

Em Madame Récamier, a obra de maior dimensão da mostra, com 1,60x2,20 – sua versão para o quadro de mesmo nome do pintor francês neoclássico Jacques-Louis David –, temos apenas a lembrança de uma mulher: um lenço repousa no canapé, onde antes havia corpo e a sensualidade recatada do início dos anos 1800. Em In memoram Morandi, uma homenagem a Giorgio Morandi, também do século 19, vislumbramos um cômodo onde tudo está imaculadamente organizado, com o mesmo toque de precisão das naturezas-mortas do pintor italiano, mas, ali, também não há a figura humana. Só livros e objetos que relembram uma história de vida.

Em outro trabalho, um dos mais delicados e bonitos da série, pantufas foram deixadas próximas a uma espécie de espreguiçadeira de ferro. Dali, vê-se uma gaiola, melancolicamente vazia. Nessa obra, em pastel a óleo, os traços muito se assemelham ao risco do giz, como a falar da existência que tão facilmente se apaga.

O artista plástico e poeta Montez Magno nasceu em 1934. Já participou de quatro bienais de São Paulo. Suas obras também foram mostradas em bienais no México e em Cuba. Nos anos 1960, foi bolsista do Instituto de Cultura Hispânica. Na década de 1970, com a premiação do I Salão Global do Nordeste, estudou artes na Europa e na Argélia. Ele mora em Casa Forte, no Recife, e se considera um autodidata.

(Publicado no Jornal do Commercio - Recife, 15/04/2010)

Experiência sensível de Carlos Mélo





» EXPOSIÇÃO

Artista reúne vários temas e suportes na mostra em Boa Viagem

Fabianna Freire Pepeu

A liberdade da arte contemporânea é sem limites. Alguns artistas mergulham em profundidade nessa ideia. É o caso do pernambucano Carlos Mélo, que, atualmente, divide sua vida entre o Brasil e Portugal. No Recife, ele inaugura amanhã, às 20h, na Galeria Mariana Moura (Av. Conselheiro Aguiar, 1552, Boa Viagem), a exposição Experiência sensível. A mostra reúne fotografias em jato de tinta sobre papel algodão, medindo 1,10x1,40, e ambientadas em Sintra, desenhos realistas em grafite sobre papel com 0,40x0,50, um curioso objeto – uma impressão a lazer de uma fotografia em 3D dentro de um cubo de cristal –, e um vídeo, além de uma performance, que será realizada, na noite de abertura, pelo próprio artista em parceria com um ator.

Experiência sensível é parte do seu Projeto Experiência Sensível, o P.E.S., iniciado em 2008, quando foi contemplado com o Marcantonio Vilaça, um dos mais importantes prêmios nacionais das artes plásticas. Além de exposição itinerante e publicação de catálogo, o programa garante aos selecionados uma bolsa de trabalho para realizar um projeto, a ser acompanhado por um crítico ou curador durante um ano. A crítica escolhida para orientar o artista foi ninguém menos do que a psicanalista Suely Rolnik, que também é professora da Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), tradutora e autora de inúmeros livros e ensaios sobre subjetividade.

“Ser acompanhado por Suely foi um presente da existência. Ela mudou a geografia do meu trabalho, mostrando que o mais importante é o processo de construção artística e, ainda, evidenciando a relação do meu corpo com o espaço, esse lugar que ocupo no mundo”, diz.

Sem dúvida, foi a partir desse diálogo que a sua relação com a criação artística mudou. Começou ele inventando o que chama de “subjeto”, um tipo de objeto subjetivo. Este é o nome que o artista dá a um chapeuzinho construído a partir de um boné com uma franja de missangas semelhante ao filá – adereço de cabeça usado em cerimônias do candomblé. Com a indumentária, vai em busca da “vivência sensível”. Assim, faz o que intitula performances sem audiência, acompanhado sempre de um fotógrafo, que registra essas “caminhadas”. É depois disso que vai construir os seus objetos. Ou não. Algumas vezes, são os próprios processos que ele expõe, como no vídeo presente na exposição em Boa Viagem, que documenta um passeio seu pelo Parque da Aclimação, em São Paulo.

“Os artistas acabaram se distanciando do que é sutil na construção da obra de arte. Houve muita concessão para o mercado. O que venho fazendo é esse resgate e, agora, não me vejo mais perdendo essa conexão com o sensível”, afirma ele, e, em seguida, complementa: “Sinto-me livre para criar o que eu quiser. Mudo de assunto e de suporte nessa poética sem coerência”, sentencia esse artista nascido em Riacho das Almas, no Agreste do Estado.

Talvez sua produção não seja tão incoerente assim, pelo menos, não aos olhos de críticos, estudiosos de arte e galeristas de referência. Eduardo Brandão, por exemplo, da Galeria Vermelho, em São Paulo, já disse certa vez que, “o seu trabalho não é uma daquelas obras de sucesso imediato, algo a ser vendido na primeira crise, mas que é um tipo de trabalho que vem sendo absorvido aos poucos e que sustenta uma geração”. Se é assim, então Mélo é um artista do futuro, e de futuro, pois sua vida profissional vem sendo construída tijolo por tijolo, ano após ano.

E o que mudou desde a sua primeira exposição (Carlos Mélo – Desenhos e colagens), realizada em 1997, no Instituto de Arte Contemporânea da Universidade Federal de Pernambuco (IAC/UFPE)? “Amadureci muito profissionalmente. Mesmo considerando algumas mudanças positivas na economia, a gente sabe o quanto é difícil nesse País se afirmar como artista e, mais do que isso, dar continuidade ao próprio trabalho. Poder continuar fazendo o que gosto e acredito é o grande barato”. Falou e disse.

(Publicado no Jornal do Commercio - Recife, 14/04/2010)

A metamorfose de João Castilho


» ARTES VISUAIS

Uma transformação pessoal

O mineiro João Castilho inspirou-se na novela de Kafka para produzir 21 fotos que integram a série Metamorfose

Fabianna Freire Pepeu

Foi em A metamorfose, de Franz Kafka, que o artista mineiro João Castilho encontrou inspiração para a produção das 21 fotografias que integram a série Metamorfose, parte da exposição que inaugura hoje, às 19h, na Galeria Vicente do Rego Monteiro. A mostra encerra a edição 2009 do Projeto Trajetórias da Fundação Joaquim Nabuco.

De posse de várias traduções de uma das frases mais terríveis da literatura universal (“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si transformado num gigantesco inseto.”), presente na abertura da famosa novela de Kafka, Castilho tratou de fotografar a página inicial de cada um desses livros como se se tratasse de uma paisagem. As imagens que produziu brincam com os elementos gráficos, entre os quais fontes e cor, destacando também questões como foco e textura. Na parede, a disposição das fotografias, que medem 20x30 cm, remete a um pequeno labirinto, outro tema presente na obra do escritor tcheco.

Fã de Kafka, Castilho se diz um pesquisador amador de sua obra. “Metamorfose é resultado de um trabalho desenvolvido ao longo dos últimos três anos, que começou com a coleta dessas 21 edições nacionais e portuguesas, envolvendo 17 tradutores”, diz o artista, que é graduado em jornalismo e mestrando em Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ao observar com atenção, a série parece propor uma reflexão acerca da transformação sofrida pelo texto durante o processo de tradução, bem como da própria fotografia como arte que traduz, traindo e transcriando. “Todo mundo olha para a mesma realidade, mas não é a mesma coisa o que se vê”, pontua.

A exposição no Recife é composta, ainda, pelos trabalhos Tempero e Abalo, ambos de 2009, e Entre rios, de 2007. Em Tempero, quatro fotografias e vídeo mostram a intervenção feita pelo artista com temperos – pimenta e açafrão – sobre um deserto de sal, na Bolívia. Ali, Castilho flerta com a pintura. No vídeo Abalo, o artista constrói repetidas vezes, no deserto do Atacama, no Chile, uma pequena torre de pedras que desaba em ruínas. “Esse trabalho tem a ver com os meus estudos sobre o tempo geológico e o tempo biológico ou social. Também remete ao trabalho de Sísifo”, explica. Por último, no vídeo Entre Rios, ele documentou a tarefa de levar objetos encontrados ao longo do rio Jequitinhonha (MG) para bairros banhados pelo Níger, que corta Bamako, capital do Mali, país africano. Feito a partir de fotografias e pequenos textos, o vídeo tem pouco mais 15 minutos de duração e é muito agradável de ver. Nele, o inusitado mineiro tenta mapear os novos usos para objetos que podem ou não encontrar alguma correspondência cultural, como uma bola de futebol. Ou um fumo de rolo, tão comum no Vale do Jequitinhonha, e que não é reconhecido por fumantes inveterados do Mali

João Castilho nasceu em Belo Horizonte, em 1978. Em 2008, seu livro de fotografia, Paisagem submersa, realizado em parceria com os fotográfos Pedro Motta e Pedro David, foi lançado pela editora Cosac Naify. A obra mostra as mudanças na vida dos moradores de sete cidades mineiras, inundadas para formar o lago de uma usina hidrelétrica. Naquele mesmo ano, ganhou o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Arte, maior prêmio da fotografia brasileira, com o ensaio Redemunho, termo extraído de Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

» Galeria Vicente do Rego Monteiro (Fundaj) – Rua Henrique Dias, 609, Derby, fone: 3073-6692

(Publicado no Jornal do Commercio - Recife, 08/04/2010)



Lírica maiúscula de um poetinha



» MEMÓRIA


Há 30 anos MPB e literatura perdiam Vinicius de Moraes

Fabianna Freire Pepeu

A doçura é um sentimento fácil de associar à figura do poeta e compositor Vinicius de Moraes, cujo 30º. aniversário de morte é lembrado hoje. Não é à toa que ele era, por excelência, o autor dos diminutivos e ganhou, ele próprio, a alcunha de poetinha. Mas ele – a gente sabe – não era tão pequeno assim. Sua fama muito menos.

Inicialmente, autor de poemas mais densos e herméticos, Vinicius caminhou para uma poética mais próxima dos eventos cotidianos, com seus temas simples e corriqueiros. Depois, ele outra vez se desloca, concentrando a sua criação artística nas canções populares. É pouco provável que, mesmo neste País ainda de poucos leitores, não se conheça um ou outro trecho de poema ou canção desse que nasceu Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes e que logo se apressou a buscar uma simplificação no nome, indo, ainda muito jovem, com a sua irmã Lygia, a um cartório, tendo passado a assinar apenas Vinicius de Moraes.

Apesar do alcance geral do trabalho do carioca, que nasceu no bairro da Gávea, em 1933, se conhece pouco da vasta obra que ele produziu. Tem o Soneto da fidelidade, o Soneto do amor total, A rosa de Hiroshima, De repente e vai o leitor de estrada curta por ali terminando a sua viagem.

“Fala-se muito do poeta, mas lê-se insuficientemente sua poesia. Sabemos de cor alguns de seus versos antológicos, mas não raro estancamos ali, ou, se avançamos com a atenção devida, nem sempre nos arriscamos em textos menos consagrados”, anotou o poeta e professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eucanaã Ferraz, na obra que escreveu sobre Vinicius para a Coleção Folha Explica, da Publifolha, em 2006. É também nesse mesmo livrinho que Eucanaã diz ser Vinicius um caso típico de artista que, ao longo do tempo, foi sendo sobreposto à própria obra.

Quatro anos depois da obra publicada, Eucanaã nos dá uma boa notícia. Por telefone, do Rio, ele diz que essa situação está mudando. “Agora, por exemplo, no vestibular unificado da rede estadual de São Paulo, o escritor é leitura obrigatória”, comemora. Segundo ele, o filme de Miguel Faria Jr. (Vinicius, 2005), que traz no elenco Camila Morgado e Caio Blat, também “tem ajudando a colocar o artista no lugar que ele merece”.

TRADIÇÃO LÍRICA

“Podemos falar num Vinicius de múltiplas facetas. Alguns poetas desenvolvem a capacidade de habitar linguagens artísticas diferentes. Ele converteu-se num poeta-músico, alguém que passou a se dividir entre a música do verbo e o verbo da música”, aponta Fábio Andrade, que é professor de Estudos Literários na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). “O que existe de mais salutar na produção poética de Vinicius é a união, em geral feliz, entre poesia e vida cotidiana, entre poesia e música popular. Na convivência com a MPB, com a música do mundo, das ruas e botecos, ele atualizou a antiga tradição lírica”.


Da influência de Rimbaud aos braços das mulheres

Vinicius de Moraes publicou seu primeiro livro de versos, O caminho para a distância, em 1933, com apenas 19 anos. Em 1933, publicou Forma e exegese, que era dedicado a Jean-Arthur Rimbaud e Jacques Rivière e que ganhou o prêmio Felipe d`Oliveira. Já no ano seguinte, sairia Ariana, a mulher. A partir dali, lançaria mais de duas dezenas de livros, entre os quais, poemas para o público infantil.

Formado em Direito, em 1943, Vinicius ingressou por concurso na carreira diplomática, tendo sido vice-cônsul do Brasil em Los Angeles, Califórnia (EUA), por quase cinco anos. Em 1967, às vésperas do AI-5, foi exonerado do Itamaraty, que dizia ser necessário o combate à corrupção, ao homossexualismo e à subversão – categoria na qual o artista foi enquadrado, sendo compulsoriamente aposentado. Em 2006, Vinicius recebeu homenagem do governo brasileiro com sua reintegração post mortem aos quadros do Ministério das Relações Exteriores.

O poetinha era conhecido pelo enorme número de amigos que possuía, entre os quais, Manuel Bandeira, Pablo Neruda, João Cabral de Melo Neto, os músicos Tom Jobim e Chico Buarque, e pela sua parceria histórica com Toquinho. Também merecem destaque a sua inveterada boêmia – sempre fotografada ao lado de um scotch –, a sua importância para a bossa nova, um dos movimentos de renovação da música brasileira, e também a sua compulsão (ou seria excesso de amor e romantismo que não se queriam desperdiçados?) pelas mulheres, tendo se casado nove vezes.

Na contramão dos conhecidos litígios, continuou tendo o amor e a amizade de algumas dessas mulheres, mesmo depois de anos de separação. Em 1978, dois anos antes de sua morte vítima de um edema pulmonar, Vinicius casaria pela última vez, com a relações públicas Gilda de Queirós Mattoso.

“Era muito bom ser casada com Vinicius pois ele distribuía amor a quem estava em volta dele. O difícil era ter que dividi-lo com a legião de pessoas que o assediavam quando saíamos para qualquer lugar”, relembra Gilda, que, aos 25 anos, deixou uma vida na Europa para se casar com o poeta dos versos: “Quem pagará o enterro e as flores, se eu me morrer de amores?”

» A hora íntima
(fragmento)

Quem pagará o enterro e as flores

Se eu me morrer de amores?

Quem, dentre amigos, tão amigo

Para estar no caixão comigo?

Quem, em meio ao funeral

Dirá de mim: — Nunca fez mal...

Quem, bêbado, chorará em voz alta

De não me ter trazido nada?

Quem virá despetalar pétalas

No meu túmulo de poeta?

Quem jogará timidamente

Na terra um grão de semente?

Quem elevará o olhar covarde

Até a estrela da tarde?

Quem me dirá palavras mágicas

Capazes de empalidecer o mármore?

Quem, oculta em véus escuros

Se crucificará nos muros?

Quem, macerada de desgosto

Sorrirá: — Rei morto, rei posto...

Quem, em seu verbo inconsútil

Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.

Qual o amigo que a sós consigo

Pensará: — Não há de ser nada...

Quem será a estranha figura

A um tronco de árvore encostada

Com um olhar frio e um ar de dúvida?

Quem se abraçará comigo

Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores

Se eu me morrer de amores?


(Publicado no Jornal do Commercio - Recife, 09/07/2010)

Foto: Arquivo Gilda Mattoso - New York, 1978

quinta-feira, julho 08, 2010

Eu mereço um lugar ao sol


MEMÓRIA

Há 20 anos, a poesia não é mais a mesma

Autor de versos ao mesmo tempo ternos e contundentes, Cazuza se foi, vítima da aids, mas deixou legado que ecoa nas novas gerações

Fabianna Freire Pepeu

“A alma lavada/ Sem ter onde secar/ Eu corro/ Eu berro/ Nem dopante me dopa/ A vida me endoida/ Eu mereço um lugar ao sol.” Tantos fragmentos similares a esses e quantos outros nos habitam? E pensar que, exatamente hoje, já se contam 20 anos desde que Cazuza foi embora, vítima de aids, aos 32 anos de idade.

Era o autor dos versos acima e de tantos outros mais ou menos complexos, pedaços de canções que perambulam o dia a dia dos que viveram aqueles movimentados anos 1980 – tempo de uma poética de insubordinação, deboche e ousadias.

Nascido Agenor de Miranda Araújo Neto, no Rio de Janeiro, em 1958, Cazuza ganhou fama por ser um roqueiro rebelde – se é que isso não se configura num pleonasmo – de personalidade supostamente polêmica e pela sua prática boêmia.

Ao lado de Frejat, seu importante parceiro musical, no Barão Vermelho, onde atuou como vocalista de 1982 a 1985, faria composições que ficariam para sempre na memória do rock nacional, a exemplo de Bete Balanço, Pro dia nascer feliz, Todo amor que houver nessa vida e Maior abandonado. Depois que resolveu sair da banda, gravou ainda cinco discos solo, entre os quais Exagerado, Ideologia e Só se for a dois, lançando sucessos como Codinome beija-flor e Só as mães são felizes e Balada de um vagabundo.

Certa vez, em entrevista ao Jornal do Commercio, o produtor musical Ezequiel Neves, que conheceu o músico em 1979, afirmou: “Quando ouvi a demo do Barão Vermelho, achei a banda maravilhosamente underground. Soube que era o Cazuza quem cantava ali, liguei pra Lucinha (Lucinha Araújo, mãe do roqueiro) e disse: “Prepare-se porque seu filho é absolutamente genial”. Nessa mesma entrevista, o produtor contou que, ao conhecer Cazuza, a empatia foi imensa. “Ficamos amigos instantaneamente”, relembrou.

Relatos semelhantes acerca de uma personalidade cativante ouviu a jornalista Tatiana Notaro, que, produziu, em 2007, para o JC, uma reportagem pelos 50 anos de nascimento do cantor e compositor carioca. “Em todos os relatos, os amigos falavam de uma pessoa verdadeiramente apaixonante. Foi muito comovente. Sandra de Sá, por exemplo, chegou a chorar ao telefone (Cazuza é padrinho do filho de Sandra, Jorge). Já Ezequiel Neves disse-me que Cazuza é a ausência mais presente na vida dele. Ele ainda é muito vivo nessas pessoas. Claro que aí há aquele simbolismo da morte, quando os defeitos são atenuados, mas falo do aspecto humano que era algo forte – muito contagiante – para aqueles que conviveram com ele. Essa lembrança acaba sendo, invariavelmente, o que sobra de cada um de nós quando morremos”, diz Tatiana.

Já a polêmica em torno do seu nome remete muito mais, na verdade, ao fato de ele ter declarado, em algumas entrevistas, a sua orientação sexual e por ter assumido que era soropositivo, num momento em que a aids era uma doença-tabu, muito mais ainda do que é hoje.

Mas para alguém com a personalidade como a de Cazuza não era possível fazer concessões: era preciso assumir e dizer tudo. Por outro lado, ele não teve apenas o seu lugar ao sol, como achava que merecia. Ele se inscreveu num certo céu nacional.

Último show foi no Recife

Foi no pavilhão do Centro de Convenções de Pernambuco, no dia 24 de janeiro de 1989, que Cazuza fez o seu último show. “Lembro que ele estava muito frágil. Falou muitos palavrões e estava bem agressivo”, conta o crítico musical José Teles, deste JC, que assistiu a despedida de Cazuza dos palcos.

“Em nenhum momento, por telefone, até mesmo quando intermediamos as entrevistas com a imprensa, deu para perceber o quanto ele estava debilitado”, recorda a jornalista Silvana Pedrosa, da Raio Lazer, empresa responsável pela vinda do artista ao Recife.

Cazuza tinha se apresentado em Fortaleza, numa sequência de cinco shows que tinha agendados numa turnê pelo Nordeste, que terminou não cumprindo totalmente.

O pavilhão estava lotado. “Ele atrasou mais de duas horas para começar o show, e entrou apoiado no palco”, conta Silvana. “A impressão que se tinha é que todos queriam se despedir dele. Todos cantavam para dar suporte e ajudar o artista e choravam ao mesmo tempo”, diz.

Na época, segunda ela, muita gente – como é de rotina em shows – levou seus LPs, na tentativa de conseguir um autógrafo. Isso também não ocorreu.

O máximo que o artista conseguiu foi fazer um esforço sobrenatural para cantar em meio a sua enorme fragilidade. Em meio ao desespero, insultou a plateia, jogou uma latinha de refrigerante de modo agressivo e disse frases desconectas. Depois, em outro momento, justificou sua agressividade. “Não queria que sentissem pena de mim”. Por isso, falava o que vinha à cabeça e responsabilizava o AZT (droga utilizada no tratamento de aids) pelas reações sem lógica aparente.

Depois daquele show, em 14 de março, foi internado com hepatite. Saiu no dia 4 de abril, seu aniversário, e passou a se locomover em cadeira de rodas. Em 7 de julho de 1990, morreu por choque séptico, causado pela doença.

(Publicado no Jornal do Commercio - Recife, 07/07/2010)

A Geografia da Violência

» EXPOSIÇÃO

A geografia da violência


Em sua individual, O auge do alôpro, o artista plástico Braz Marinho reúne objetos, esculturas, instalação e vídeo

Fabianna Freire Pepeu

O cidadão comum anda pela cidade a cumprir tarefas. Vai do ponto A ao ponto B e, dali, a um sem número de pontos: espaços no mapa. O artista não. Seu olhar penetra os aspectos cotidianos e neles encontra um mundo invisível. É assim, por exemplo, com o artista plástico Braz Marinho, que construiu a exposição O auge do alôpro (gíria que remete ao termo amalucar) a partir das chaves, correntes e cadeados utilizados diariamente pelos pequenos comerciantes do Centro do Recife.

Sua nova individual, cuja abertura ocorre hoje, às 19h, no Instituto de Arte Contemporânea da Universidade Federal de Pernambuco (IAC/UFPE – Rua Benfica, 157, Madalena. Fone: 3227-0657) é uma geografia da violência.

Objetos, esculturas, instalação e vídeo remetem a um único sentimento: o de medo. Um medo abstrato? “Não, não se trata de algo subjetivo. É medo objetivo de ser furtado, de ser roubado, de perder o que se tem, de andar pelas ruas”, explica Braz.

Tudo isso não é à toa. Em suas andanças pela Avenida Dantas Barreto, uma das principais do Centro do Recife, o artista viu banquinhos de madeira – roídos pelo tempo e de pernas já tortas – serem protegidos com longas correntes e até um velho Fusca viu ser acorrentado.

O artista então é tomado por um sentimento de extrema agonia e vai em busca da (re)construção possível de um mundo mais suave. Assim utiliza madeira, arame retorcido, aço, alumínio e tantos outros materiais densos e duros, mas a eles soma a maciez do veludo como no objeto So velvet (literalmente: tão aveludado). Mas, ali também visualizamos pedaços de aço a lembrar pontas de faca afiada maculando o tecido suave.

OBJETOS

Além de So velvet, que mede em torno de 50 cm x 50 cm, a exposição reúne seis outros objetos: Momento lúdico com band-aid, Fronteira de ex-domínio – que são três peças distintas com desenhos a partir de ferro retorcido –, Alicate e Contenidos – bloco sólido de madeira que sustenta pequenos fragmentos, também em madeira.

Entre as esculturas, destaque para as belíssimas Homem estreito (madeira com alumínio) e Cadeira para o homem estreito (madeira com inox), ambas medindo 2 m x 0,08 m, com predominância da madeira em sua composição. A aparente desproporção de medidas tem um sentido. “De tão pressionado, o homem ficou assim. Ele é estreito porque não conseguiu resolver como modificar essa situação de coisas”, diz Braz. Ah, claro...

E se tudo têm nome nessa individual do premiado artista de 48 anos – nascido em Souza, na Paraíba, e há muito tempo adotado por Pernambuco – o mais longo ficou para a instalação, que se chama Onde está a chave do armário da chave do armário das três chaves?

É quando o trágico se une ao cômico. A instalação, composta por uma infinidade de chaves de diferentes formas e tamanhos, nos fala de tudo o que está fechado e guardado. Ali perto dois pequenos armários em madeira – igualmente trancados – guardam chaves que, por sua vez, guardam um outro algo, como a lembrar dos segredos guardados a sete chaves. No chão, uma tampa de ferro, obviamente muito lacrada, protege uma bomba d’água ou uma fiação elétrica. Não sabemos ao certo o que está protegido e já nem importa. Importa saber que tudo parece em perigo e que os gatunos nos espreitam.

VIDEOARTE

É possivelmente o vídeo a peça da exposição que serve de instrumento de síntese para todas as outras. Com cinco minutos de duração (a trilha sonora é de Grilo e a fotografia de Francisco Baccaro), ele mostra uma personagem (encenada pelo próprio Braz Marinho) que, ao vivenciar inúmeras situações de violência, desenvolve um medo crônico, passando a experimentar uma situação-limite, paranoica, que tende à explosão.

Uma das cenas do vídeo, que foi ambientado em diversos cenários, foi reproduzida na sala térrea do IAC. Durante o vernissage desta noite, o artista Wolder Wallace vai fazer uma performance. O que vai ocorrer? Por enquanto, é segredo de Estado.

(Publicado no Jornal do Commercio - Recife, 30/06/2010)


sexta-feira, junho 18, 2010

Uma Prece


Tremenda é a dificuldade de... Mais tremenda, ainda, é a dúvida. Vou, então, em busca dos poetas, e eles me socorrem. Em Manuel Bandeira (1886-1968), encontro Ubiquidade: Estás em tudo que penso,/ Estás em quanto imagino:/ Estás no horizonte imenso,/ Estás no grão pequenino./ Estás na ovelha que pasce,/ Estás no rio que corre:/ Estás em tudo que nasce,/ Estás em tudo que morre. Em tudo estás, nem repousas,/ Ó ser tão imenso e diverso! (Eras no início das coisas,/ Serás no fim do universo.) Estás na alma e nos sentidos. Estás no espírito, estás/ Na letra, e, os tempos cumpridos/ No céu, no céu estarás.

Em Olavo Bilac
(1865-1918), o poema Natal: No ermo agreste, da noite e do presepe, um hino/ De esperança pressaga enchia o céu, com o vento... As árvores: “Serás o sol e o orvalho!” E o armento:/ “Terás a glória!”/ E o luar: “Vencerás o destino!” E o pão: “Darás o pão da terra e o pão divino!” E a água: “Trarás alívio ao mártir e ao sedento!”/ E a palha: “Dobrarás a cerviz do opulento!” E o teto: “Elevarás do opróbrio o pequenino!” E os reis: “Rei, no teu reino, entrarás entre palmas!” E os pastores: “Pastor, chamarás os eleitos!” E a estrela: “Brilharás, como Deus, sobre as almas!” Muda e humilde, porém, Maria, como escrava,/ Tinha os olhos na terra em lágrimas desfeitos;/ Sendo pobre, temia; e, sendo mãe, chorava.

Na Canção Quase Inquieta, de Cecília Meireles (1901–1964), leio: De um lado, a eterna estrela,/ e do outro a vaga incerta,/ meu pé dançando pela extremidade da espuma,/ e meu cabelo por uma planície de luz deserta./ Sempre assim:/ de um lado, estandartes do vento.../ - do outro, sepulcros fechados./ E eu me partindo, dentro de mim, para estar no mesmo momento de ambos os lados./ Se existe a tua Figura, se és o Sentido do Mundo, deixo-me, fujo por ti, nunca mais quero ser minha!/ (Mas, neste espelho, no fundo desta fria luz marinha, como dois baços peixes, nadam meus olhos à minha procura... /Ando contigo – e sozinha./ Vivo longe – e acham-me aqui...)/ Fazedor da minha vida, não me deixes!/ Entende a minha canção!/ Tem pena do meu murmúrio, reúne-me em tua mão!/ Que eu sou gota de mercúrio, dividida, desmanchada pelo chão...

Marcada pela angústia contemporânea, vem a Prece, de Ferreira Gullar (1930-), que me diz: Senhor!/ aceita meu desespero!/ Pois eu caminho sem ver a estrela, guia dos Reis na noite mágica. Senhor!/ me escuta!/ que eu sou aquele que não te encontra, mas não duvida de teu silêncio;/ E hoje te oferta seu desespero! Eu sou aquele que te procura para dizer-te: - Senhor, me odeio! /Pois sou aquele que nunca pôde rir sem receio.

Finalmente, em O Nascimento, um dos seus Poemas em Louvor de Jesus Cristo, Augusto Frederico Schmidt (1906 – 1965) me faz um convite: Vamos ver a Estrela! Sairemos pelas estradas, cantando,/ Sairemos de mãos dadas,/ E acordaremos as brancas e tímidas ovelhas. Iremos surpreendê-Lo,/ Pequenino e Simples./ Sua Inocência iluminará os caminhos felizes, dormindo. Vamos ver a Estrela!

Irei.


(Texto 12/2009)


Curto-circuito


Eu fervo. Tudo em mim é calor. Os abanadores não param. O ventilador de teto está ligado. O pequeno ventilador portátil também. O aparelho de ar condicionado trabalha em sua potência máxima. Nada refrigera a minha alma. Lavas escaldantes. Imploro aos Céus um refresco. Não se ouve palavra. Todas as agendas derretem. Ligações e conexões escorrem. Inspirando, expirando, inspirando, expirando. Porque a gente nunca a chega a conhecer ou tocar o que realmente importa. Frases curtas. Período simples. Lição perdida é tempo que não se recupera. Agito a bandeira e o que escuto é um insuportável silêncio de estátua. Uma sucessão de imagens parece tatuada em meu corpo branco. Não me esqueço do que gosto. Suco de laranja pela manhã. Dormir até tarde. Inúmeros copos d´água durante o dia. Sexta-feira. Suco de melancia é muito fácil de fazer. Cinema no meio da tarde. Pão. Dirigir sem destino. Feijão. Um pouco de amor. Banana ligeiramente verde não faz mal a ninguém. Livro novo. Bolacha Cream Cracker deveria ser produto proibido. Avião decolando rumo a longa viagem. Maçã nacional faz crec crec. Sigo em frente sempre olhando um pouquinho para trás. Damasco em demasia dá disenteria. Uma rima aqui. Outra acolá. As melhores ruas são as que nos levam. Olhar não custa. As cidades estão cheias de ofertas. Na Índia, é possível comprar até um rim. Afinal, quem precisa de dois? Enrola o fumo e deixa de conversa. O boi já cochilou e logo, logo, morre seco esturricado nas terras do Sul. Do outono mesmo, só distante notícia. Já o sertão, submerso. Quem sabe de mim sou eu. Chega de abraços. O homem sem perna andou a rua inteira. Equilíbrio não é questão de escolha Filho de peixe mora em aquário, lobisomem nunca descansa e, na festa que reúne várias gerações, a avó conta histórias que ninguém escuta, a mãe fala com as paredes e a filha tem o olhar paralisado na tela do computador. É o fenômeno da comunicação global. Quanta interação virtual! Delírios ocorrem todos os dias. Quase não se nota mais a diferença entre verdade e mentira. Finalmente, o mundo chega ao apogeu. Cruzes, cruzes! Um dia a casa cai e o barco vira. É possível rodar e rodar e cair ad infinitum no mesmo lugar. O processo de adaptação pode ser bem difícil para quem não é adaptável. Um plug faz melhor. Não curto o circuito. Pode esperar. Não vou voltar. Chego ao fim. Certo mesmo é que viver arde. Viver queima.


(Texto 2009)

terça-feira, maio 11, 2010

Uma moça sempre à janela


Sábado, que era de lua cheia, tornou-se Sábado de ruas alagadas. A casa da avó, uma ilha. Coitada da avó, quase cega e morando numa ilha.

Domingo, que era de chuva, tronou-se Domingo de rápido céu Blues. Beatriz precisava tomar coragem: sair da janela, almoçar, telefonar, organizar papéis diversos.

Na Segunda-feira, voltava para casa apressada. Chegava ofegante. Cabelo, blusa e sapato molhados para desespero da avó. Mas o juízo, pensava Beatriz, estava seco. Trocada a roupa molhada, ia à janela olhar a casa ilhada. Precisava mesmo organizar alguns papéis e apostilas. O guarda-roupa desarrumado a olhava de soslaio como a fazer sutil advertência pelo descaso com as coisas simples da vida. Da janela, seu ponto de observação mais legítimo, olhava o Inverno passar.

No Inverno, o mundo passava de guarda-chuva, capas escuras, botas cheias de lama, livros apertados junto ao peito. A casa da avó, uma ilha. A avó tolhida da tarefa de aguar as plantas, pequeno prazer diário que o Inverno lhe negava. Assim, era obrigada a passar os dias em frente à TV, olhando fixamente o aparelho velho e com defeito. O Inverno era apenas dois meses de chuva (e nenhum frio!), mas para a avó parecia nunca terminar. Passada a estação chuvosa, no entanto, nem se dava conta que tinha, sim, sobrevivido. Tinha, sim, conseguido ultrapassar manhãs e tardinhas, sem tirar as folhas secas da comigo-ninguém-pode, do cafezinho e da jibóia.

Na Terça-feira já era Verão. Encostada à moldura de madeira da janela imensa, Beatriz percebia que a tarde era de moças em bicicletas. Olhava-as a perder de vista e pensava que distância era algo muito engraçado. Existia e não existia. Depois, olhava as crianças passando e berrando e a mãe tentando acalmá-las – tarefa fadada ao fracasso. E, horas depois, via homens esquisitos com cara de traficantes, homens com cara de homens que olham seguidamente para trás, receosos de estarem sendo perseguidos. E o fato é que, situada naquele ponto privilegiado, Beatriz compreendia que nem uma formiga minúscula perseguia ou reparava naqueles homens esquisitos. A observadora atenta olhava, então, a avó mais uma vez no jardim, cuidando de suas plantinhas. A avó adivinhava as folhas secas, passíveis de corte: corte seguro-seco, aprendido ao longo dos anos.

(E o verde preciso da folhas do Cafezinho contrastando com o azul sem nuvens do céu de Agosto enchiam os olhos de Beatriz de difusa alegria. Nascera com essa predisposição para observar o mundo. Era bem verdade que, vez por outra, olhava, constrangida, seu próprio quarto, onde tudo estava continuadamente bagunçado. Com pesar, abandonava a janela e levava horas e horas na arrumação, consciente que, se houvesse limpado e organizado um pouco por dia, não gastaria tantas horas num só dia, mas, enfim.)

A faxina geral era feita às Quartas-feiras. Apesar da falta de disciplina, Beatriz escapava sempre por um triz. E porque na Quarta-feira acordava sempre indisposta e porque faxina mexia com sua areia movediça e porque a avó era sensível lhe fazia um chá de camomila.

A Quinta-feira passava muito apressada e, quando Beatriz se dava conta, já era noite cerrada.Restavam-lhe, então, algumas estrelas de ocasião e uma rima pobre.

Na Sexta-feira, tomava banho demorado, escovava os dentes brancos, usava fio dental, colocava calcinhas novas e mexia o bumbum tentando se equilibrar num palito de dentes. Olhava as poucas pessoas voltando para casa, dava tchau para avó, e desfilava para ninguém, uma noite inteira, em frente à sua própria janela.


(Texto 1997)

segunda-feira, maio 10, 2010

Dos afetos contemporâneos


...A magnitude de tudo aquilo estava precisamente naquele rosalaranja que impregnava o horizonte depois que o sol havia ido embora...

Enquanto isso, Rafael descia e subia escadas, retirando do apartamento onde morava roupas e toalhas e lençóis e apostilas. Pareceria banal tudo isso não fossem os gemidos de Maria.

Rafael tinha feito Maria delirar em noites e tardes de sexo quente e barulhento. Eu me perguntava quantas vezes teriam eles assistido à versão pop do Kama Sutra e o quanto acreditariam no amor tântrico. Obviamente, imaginava que os meus porquês tinham lá seus ais. Independente disso, algo era certo: quanto tempo eles agüentariam aquele afeto corporal, seguido de frases adocicadas sobre o cardápio do jantar.

Era a quinta vez que fechava a porta do carro. Por duas vezes, deixou a chave cair no asfalto. Agachou, pegou a chave e, de novo, refez o caminho. Do seu rosto, impressionantemente jovem, não jorrava nada. Nem cansaço, nem chateação, nem pesar, nem coisa alguma. Era como um autômato que subia e descia e agachava e abria e fechava a porta do carro, do apartamento e do mundo.

Era assim, então?

Rafael dormia com Maria que dormia com Rafael. Um dia, uma briga, e lá se foram roupas, toalhas, lençóis, e caixas de som.

Entrou no carro, deu um pequeno ré, engatou uma primeira calma e plácida e, sem remorso, foi embora. Nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Estava indo embora como quem deixa um supermercado ou um posto de gasolina.

Na noite densa, nem gemidos, nem música, nem nada.

Uma casa vazia, uma Maria, mais nada.


(2005)

Pressentimento


Estudou música desde criança e, aos 21 anos, já era músico profissional. Estrangeiro fixado no Brasil, certo dia, casou e teve dois filhos. Inquieto que era, viajou por vários estados, até encontrar um lugar para viver. Sua mulher era uma destemperada, que gritava de noite e de dia quando tinha motivos e quando motivos faltavam. Assim, em certa ocasião, sem saída, resolveu dar um basta naquilo tudo, mesmo sabendo que isso não se faz sem perdas. Os filhos ainda pequenos ficaram com a mãe, precisando depois empreender grande esforço para ter a guarda dos meninos, que eram lindos de doer.

Nunca foi dado a divagações filosóficas: era homem prático, de relativo fácil trato, apegado apenas ao seu instrumento de sopro, aos filhos, aos gatos e ao cachoro, não necessariamente nessa ordem. Também tinha certo apreço por sua bicicleta. Ela o conduzia a qualquer parte da cidade, exceto em dias de chuva. Nesses dias, pegava um ônibus, considerando que a cidade em que morava era uma das poucas do País a contar com um bom sistema de transporte público.

Passados alguns anos da separação, viveu alguns romances, mas nada muito significativo. Até quem, um dia, do nada, apareceu essa mulher. Era branca, tinha cabelos claros, olhos escuros, de estatura mediana, e igualmente louca como a primeira mulher que havia tido. Mas, concordemos, possuía um tipo de loucura dessas que não faz mal a ninguém.

Não chegou de mansinho. Chegou querendo inúmeros espaços.

Embora não fosse tão atento aos sentimentos alheios, era bom observador de movimentos, e se a deixou entrar na sala e no pequeno escritório e depois em toda parte foi porque quis mesmo. Nem um só momento de distração foi registrado.

O certo é que permitiu a entrada e, depois, a estada dessa mulher em sua vida.

Os dias começaram a passar com velocidade e igualmente veloz crescia o seu sentimento pela mulher branca, espaçosa, vinda do nada. Gostava do seu cheiro, do modo como mexia os cabelos, de um certo mistério que não se explicava. Para além disso, não era necessário qualquer adequação para manter uma convivência harmoniosa. Tudo parecia fácil e suave. Finalmente, a vida tinha lhe dado algo, sem a necessidade de grande esforço.

Pouco a pouco, os dias ganharam uma nova textura. Era bom voltar para casa, conversar, rir um pouco da vida, fazer pequenas tarefas e refeições juntos e sair para passear. Não lembrava de ter experimentado nada similar em toda a sua vida e já não era mais tão jovem.

Certo dia, no entanto, ao voltar do trabalho, cruzou com um carteiro - um velho conhecido do bairro - e teve um súbito pressentimento de que algo estava por acontecer. Nunca tinha dado muita bola para essas coisas que não se explica. Achava que eram bobagens e, por cima, era quase ateu. O fato é que, naquela ocasião, movido por sentimentos mágicos apressou o passo e, depois, disparou a correr até chegar ao portão de casa.

Ao entrar, coração aos pulos, não encontrou nada do que lhe era conhecido. Seus móveis tinham desaparecido e, em lugar deles, havia outros objetos. Tudo estava muito organizado, mas era absolutamente desconhecido. Da mulher, não havia sinal, como se nunca tivesse estado ali. Não sabia o que fazer com tamalho mistério. Ao olhar seu rosto, em um grande espelho no centro da sala, percebeu que aquele que pensava ser também nunca havia existido.

Às vezes a vida apronta cada uma!



(Texto 2008)

Vida para consumo


Lido muito mal com prazos. E com pressão também. É por isso que, por mais que eu tente, fico só enrolando, olhando o papel, tateando o teclado, buscando o que não faz a menor questão de vir à tona. Do lado de fora, um silêncio de feriado. Do lado de cá, uma palavra ou outra perdida da mulher ao telefone com seu forte sotaque estrangeiro. Brasileiro no exterior só consegue distribuir folhetos nas esquinas, fazer faxina ou ser garçom. No Brasil, ao contrário, estrangeiro é coisa fina. Colônia é colônia. E por falar em cheiros, tem coisa melhor do que um bom perfume? Eu não sabia, mas tem gente que não suporta. Se for por uma questão de saúde, alguma alergia, essas coisas, dá para entender. Agora, não gostar de perfume porque não gosta de perfume, aí, já acho que se trata de problema sério. É quase tão grave quanto falar tudo no gerúndio. Se um dia eu tiver um ataque do coração terá sido por ouvir em excesso essas moças e rapazes que trabalham para as empresas de telefonia móvel.

Até bem pouco tempo, chique era ter um telefone fixo em casa e um telefone móvel, que viajasse com você pelos quatro cantos da cidade. Agora, chique é ter um único aparelho que tem as duas funções e que, ainda, é máquina fotográfica, despertador, tocador de música e sei-lá-mais-o-quê. Também lembro da época em que era cafona, mas muito cafona, ter grandes aparelhos de televisão em casa. Chique mesmo era ter uma televisão pequena. Os anos se passaram e, agora, quanto maior, melhor, de novo. Tecnologia a serviço dos critérios de status de uma sociedade. Bem interessante essa nossa sociedade cheia de gerúndios, aparelhos de televisão gigantes e estrangeiros bem empregados, obrigada! A bem da verdade, televisão grande não. Trata-se de home-theater system. Biscoito mais fino. Iguaria já quase popular a ponto de não ser mais chique. O que é popular não é chique. Se todo mundo pode, não tem graça. Graça é ter o que os outros não podem ter. Isso torna uma pessoa muito chique. Sociedade interessante essa nossa.

Isso para não falar na linguagem. E isso vai muito além das expressões que se memoriza a partir dos programas de televisão, comerciais, e todo esse lixo a que estamos expostos. A linguagem cotidiana, além dos gerúndios utilizados pelas moças e rapazes do mundo do atendimento, dá vontade de chorar. E, aqui em Brasília, parece que a situação é mais grave. Talvez, seja a falta de umidade no cérebro. Talvez, seja algo mais complicado. O que mais me assusta é que esses hábitos são contagiosos. É comum ser surpreendido por uma bomba saindo da boca e você atônito sem acreditar que falou uma barbaridade capaz de tremer aurélios e dona Maria do Carmo.

Em por falar em brilhantes professoras de português, dessas que nenhuma tecnologia japonesa é capaz de produzir, estou em dívida. Tinha que escrever uma carta para dizer a dona Maria do Carmo que foi graças a sua presença em minha vida, naquele tempo longe do Santo Antônio, que ainda consigo articular alguns sons e produzir meia dúzia de textos, mas era preciso tê-la trazido comigo pela vida afora. Isso evitaria ferir a linguagem, os meus próprios ouvidos e os dos meus poucos leitores.


(Texto 2007/Foto 2010)

quarta-feira, novembro 05, 2008

Gramas de Soma


De cabeça para baixo já não podia ficar por muito tempo. As tragédias tinham deixado suas marcas na alma e no corpo. Assim era, portanto. Já não podia ficar de cabeça para baixo sem ter a sensação de que morreria sufocado. E, se morresse durante a noite, quantos dias levariam para que percebessem o seu desaparecimento?

Que importava também? Era só mais um no meio da multidão. Uma multidão ávida por uma vida nova. Vida nova significando carros novos, casas novas, amantes novos, geladeiras novas, lençóis novos, uma vida inteira novinha em folha era o grande sonho coletivo.

Estava tão desolado. Havia chegado ao final do ano e sabia que não havia chegado a lugar nenhum. Havia chegado ao final do ano e sabia que não havia chegado. Havia chegado ao final do ano. Estava sentado na mesma cadeira, no mesmo escritório, na mesma cidade, olhando o rosto aborrecido dos mesmos colegas. Não, não era isso o que tinha em mente, absolutamente.

Mais uma vez, tentou manter a coluna ereta, mas, desta vez, não funcionou. Seu plano de fuga também não. Se, ao menos, tivesse gramas de soma, como Bernard e Lenina, personagens de Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo, então poderia ficar horas e horas vivendo uma alegria inventada por admiráveis homens novos.

Mas não tinha nada, exceto essa dor que queimava o seu corpo por dentro e que o fazia pensar que lógica teriam a matéria, o corpo, a alma e o mundo. Não, não tinha nada. Não tinha família, não tinha amigos do peito, nem nada. Estava só no mundo. E isso não era lá uma coisa muito fácil de encarar, nem no final do ano, nem em tempo algum.

Seu coração experimentava tudo com dor e intensidade. Seria isso normal? Seria isso indicado? Não seria isso algo perigoso? Mas como fazer para deixar de ser assim? Como escrever essa narrativa impossível? Só Clarice encontrava alguma salvação pela palavra. Mas Clarice era Clarice e ele era apenas um rapaz latino-americano sem parentes importantes e vindo do interior.

Se ao menos tivesse um pouco de soma, viajaria pelo espaço sideral e não ficaria tão aborrecido com o cenário inventado por estranhos seres, apelidados de arquitetos do futuro.

Futuro, futuro, futuro, desde Pedro negando Jesus três vezes. Não, não era isso o que tinha em mente, absolutamente.


(Foto 2008)

Cerrado não é lugar de peixe


Engana-se quem pensa que escreve o que quer. Os textos são independentes. Eles usam a gente para aparecer no mundo. Eu sou uma das testemunhas das artimanhas das palavras. Tão apressada não sei do quê eu estava que resolvi escrever em pensamento, antes de escrever mesmo. Tinha o começo, uma parte do meio, quando, de súbito, percebi que aquilo não iria funcionar. Bastaria eu sentar, imaginar o papel em branco em posição vertical (sim, sim, porque na era digital, os papeis ficam em frente da gente, em pé, como as telas dos artistas plásticos) e pronto: copiar ali o que eu havia imaginado no banheiro. Sim, eu estava escrevendo no banheiro, digo, eu estava escrevendo mentalmente no banheiro. Muita gente pensa no banheiro. Outros escrevem. Banheiro ou não, o fato é que tudo o que escrevi desceu pelo ralo. Cheguei aqui, sentei, olhei o papel, e nada. E eu sempre apressada não sei do quê pensei: pois é, as palavras são o que querem ser, e não o que a gente imaginou que elas seriam.

Assim seja.

Sei que o domingo já se foi. Eu? Às voltas com a pescaria de palavras. Peixe nunca pesquei direito. Um dos meus avôs tinha essa mania de pescar, mas eu mesma acho que não ganharia um tostão com isso. Primeiro porque eu tenho pena daquele troço pontiagudo na boca dos peixinhos e, segundo, porque eu acho meio enfadonho esse negócio de ficar esperando pelos peixes.

Sim, mais uma morte! Morreu o meu peixe. Ele morava com a minha mãe, pois era muito jovem para viajar por aí comigo. Morreu dias depois da morte de uma das minhas avós. Acho que ele pressentiu o clima geral e puf! Deu fim à própria vida. Digo que isso foi iniciativa dele porque não faz sentido um peixe durar tanto tempo – coisa de uns cinco anos. Se ele viveu tanto, então, poderia muito bem durar uma vida inteira. Conclusão: os peixes, ao contrário das pessoas, morrem no dia em que lhes dá na telha. Os de aquário. Os outros morrem porque tem muita gente que gosta de pescaria. Ou de poluição.

Por onde ando, o que menos tem é peixe. Cerrado não é lugar de peixe. Ou então é e eu não sei. Nunca vi um peixe por aqui, mas é bem capaz que exista. O que tem mesmo por aqui é tubarão. (E tubarão não é peixe, menina?!) Aqui chove tubarão. Num só dia, na semana passada, eu conheci três pessoas-tubarões.

Mas agora já é noite e eu tenho de ir. Não que eu tenha medo do escuro da noite, do breu da cidade. O que eu tenho medo é de outra coisa. Eu tenho medo é de não dar certo. Não dar certo o quê? Sei lá.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Voo na infância

Foi Ivana quem me pediu para escrever um texto sobre uma outra amiga de infância. Eu não sei escrever encomendas porque isso é coisa muito difícil. Aliás, escrever é difícil de qualquer jeito. Mas o motivo do pedido era relevante e eu aceitei o desafio. Era necessário registrar - em algum lugar - palavras que guardassem o que o destino teimou em levar. Vou tateando e amaciando o teclado e me ponho triste. Muito tristes, vejo-os daqui de tão longe, devem estar Dona Lourdes, Seu Severo, Alexandre, Maria Eduarda e Tiago.

Lembro bem de Dona Lourdes, na porta da casa, nos recebendo com simpatia enquanto, do lado de fora, um bando de meninas trelosas berrava, chamando a amiga para passear de carro. Passear de carro era uma aventura naquele tempo. Ninguém tinha carteira de motorista, nem carro próprio, nem nada. Tratava-se de uma deliciosa esculhambação. Lembro também que, muitas vezes, Jane apenas ouvia as histórias engraçadas contadas por Pixilinga (Érika) pela janela do carro, dava a sua inconfundível risada e, depois, se despedia porque, ao contrário da gente, tinha mais o que fazer. Como Lana (Roselane), Jane sempre pareceu mais madura ou mais focada, como se diz hoje em dia. Já era mais mulher do que menina. Pelo menos, era assim que eu percebia.

Muito tardiamente descobri que era virginiana. Muito tardiamente descobri que teria, muito em breve, 40 anos, a mesma minha idade e de Fosbi (Fabíola).

Mana (Sheila) e Liana, todas as velhas amigas, companheiras de risadas e muitas brigas, me deram notícias de Jane à época do São João, mas não me aconselharam ir até lá. Tive vontade e tive receio. Seu caso era grave, muito grave, mas ela alimentava a esperança de não sucumbir a mais terrível das visitas, aquela que nos levará embora a despeito de todos os pedidos em contrário. Jane amava a vida, tinha bom humor, e era uma excelente vendedora. Tudo isso me disseram porque já não se contam nos dedos os anos em que a vi pela última vez.

Também soube que continuava a usar a mesma franjinha no rosto, contrariando o jeito de mulher que sempre me pareceu possuir. Era uma mulher disfarçada de menina ou uma menina disfarçada de mulher? Nunca tivemos uma amizade íntima, mas eu sempre senti empatia por ela, julgando ser boa gente. Minha saída precoce de Caruaru não nos deu outras oportunidades. Com alguns hiatos, continuei mais próxima apenas de minha prima - que sempre me defendeu dos outros, mas, que paradoxalmente, me batia se tinha uma oportunidade - e de Fabíola, Roselane, Liana e Ivana.

Jane, ao contrário de mim, nunca saiu de Caruaru, no que fez bem feito. A gente fica sem raízes quando corre o mundo. É verdade que tem muitas histórias para contar, mas, ao mesmo tempo, fica meio solta, meio órfã de ruas e casas e telhados cotidianos. Tem saudade e desejo de voltar, mas já não sabe onde mora sua casa escondida, alugada, perdida.

Nunca pensei que pudesse um dia escrever um tipo de obituário. Nunca pensei que amigas e colegas de infância morressem. Pensei que tudo isso duraria para sempre. Estava bem errada.

Edjane de Melo Silva, nascida sob o signo de Virgem, casada e amada, pois assim me contaram, morreu vítima de câncer, na sexta-feira, 13 de julho de 2007, às 6h45 da manhã, na cidade em que viveu. Jogou vôlei, fez amigos, teve uma menina e um menino, dois irmãos, uma amigona (Heloína), outras amigas (Lúcia, Adjani, Giovana e quantas outras?). Deixou um lugar vazio, um lugar que nunca será de nenhuma outra pessoa, únicas que somos. Por um tempo, o choro no coração doído. E depois, quando os dias e os meses e os anos passarem, ficará a lembrança de uma franjinha, de um sorriso, de uma risada imensa ecoando na solidão.